No meio do caos eu paro para ver coisas antigas que tenho guardadas numa pasta e no coração. Me deparo com algumas fotos nossas, bem antigas, confesso, eu ainda era uma criança. Em uma delas eu parei para observar o jeito que me olhavas, dava para ver a ternura no ar, no olhar, no seu sorriso meio disfarçado. Tu nunca precisou me dizer algo, ou com todas as letras, que me amava, mas eu sempre senti isso, o amor estava lá quando tu construiu uns patins com apoio em que tu me empurrava para cima e para baixo, nos tic-tacs de laranja, nós pirulitos de dedo. Tu nunca foi bom em falar, né? Eu compreendo, as palavras as vezes queimam e é mais fácil degluti-las para o queimor passar mais rápido. É mais fácil mesmo, faço a mesma coisa.

Me pergunto se sou resistente ao amor. Esse questionamento já passou muitas vezes em minha cabeça. Acho que tu nunca encontrou a sua resposta, e talvez eu esteja indo pelo mesmo caminho e fique sem resposta. O amor se acha?

Por fim

Cai o primeiro corpo do céu, ao raiar o sol, em Porfim. Foi um alvoroço completo naquele pequeno vilarejo de algumas centenas de habitantes. Primeiramente acharam que era um anjo que perdera as asas, levados puramente pelo achismo de Padre Felipe, que queria por Porfim no mapa hierárquico da Igreja. Seu principal argumento era que o corpo não havia sido desconfigurado pela queda que abriu um buraco entre a torre do relógio e o pátio da sua igreja, preservando perfeitamente seus cabelos loiros, lisos e seus olhos azuis, afirmava também que não havia cheiro algum emanando do corpo, uma característica única dos anjos de mais alto escalão. Contudo a população não deu muito cabimento, sua Igreja ainda era um negócio pequeno na região, sem muitos fiéis, afinal o povo costumava tratar e julgar o que era pecado entre si, e somente.

A única médica do local foi chamada e a conclusão final foi de que era apenas um corpo morto. Optou-se então por enterrá-lo, mas de forma digna com um cortejo, afinal morto estava e merecia que alguém o chorasse, e sempre se chora em cortejo. As senhoras viúvas foram postas à frente, para chorar, de alegria ou tristeza, pelos seus maridos e o novo morto. Foi, enfim, enterrado no dia seguinte à queda.

Logo depois o assunto foi esquecido e as pessoas voltaram às suas atividades cotidianas, sem muito aperreio, seguindo o ritmo desacelerado de quem não tem com o que se preocupar, preservando o sono da tarde em uma rede entre árvores ou na varanda. Mesmo assim Padre não se deu por vencido e mandou uma carta a Arquidiocese da capital do estado, enumerando minuciosamente os pontos a favor de um anjo ter caído em plenas terras brasileiras e como o tratamento foi esnobe para tal evento.

Enquanto esperava a resposta foi agraciado com um segundo corpo caindo do céu, mas dessa vez resolveu não fazer alarde e preservá-lo na mesa de pedra de sua Igreja.
O dito anjo permaneceu lá por duas semanas, sem exalar qualquer odor, sem emanar qualquer sugestão de que havia vida lá. Durante esse período o Padre Felipe, ao olhar mais atentamente, percebeu que se tratava do mesmo corpo que o primeiro, mais um indício de que havia mãos divinas nisso e um sinal claro de que o fim dado na primeira vez não havia sido digno. O anjo retornou para receber o desfecho merecido. É certo. Na terceira semana chega ao vilarejo uma comissão elaborada pela Arquidiocese para avaliar o caso, foram recebidos e hospedados pelo Padre, que foi logo avisado que casos semelhantes estavam acontecendo em algumas cidades ao redor do mundo.

– Pronto, uma guerra santa com várias fatalidades para o lado do Senhor!

– Não vamos nos precipitar – disse um dos emissários – os casos estão todos sendo investigados, e o que nos parece é que são apenas mortos.

Os emissários permaneceram ali por alguns dias, fazendo os mais diversos testes com óleos especiais, orações e objetos afim de decidir o destino daquele corpo, seria um anjo ou apenas um morto comum? Por mim, de forma unânime, o veredito foi favorável à segunda opção.

– Um anjo ao entrar em contato com objetos sagrados ou ao ouvir nossas rezas reagiria. Aconselho que comunique às autoridades terrenas para decidir o que fazer – Laudou o emissário.

A decepção ficou estampada no rosto de Padre Felipe, mas ele se resignou e avisou à população que o morto havia voltado. Ninguém soube explicar como aquilo havia acontecido e resolveram exumar o corpo enterrado anteriormente para tirarem a dúvida, e, para a surpresa de todos, o caixão estava vazio.

O enterro aconteceu, então, mais uma vez, dessa vez sem lágrima alguma. Não se passaram dois dias quando o corpo cai novamente dos céus, dessa vez na quantidade de três, o loiro enterrado duas vezes, uma mulher de olhos puxados e cabelo preto e um homem cheio de sardas e o cabelo ruivo, deixando três buracos em meio a praça da cidade. Não importa o que fizessem, os mortos enterrados sempre voltavam a cair do céu, além de outros chegarem no decorrer da eternidade. Ficou decidido mantê-los na praça, expostos, como em um museu, organizados em pé, como estátuas.

Essa situação se manteve sem resposta. Nunca descobriram o real motivos de corpos caírem em Porfim ou em outras cidades. Tudo isso nada mais era do que uma retribuição da Terra, que decidiu não ser mais adubada com o tipo de gente que viveu uma vida menosprezando, agredindo ou matando os próprios e não se importava com nada além de si, sem arrependimento ou dor.

PASSEIO


Enquanto o céu azul resplandece
Todo barulho externo se ensurderce
Para dar lugar ao sons internos
Dos desdobramentos pós-modernos

A água doce me banha
E o amor me acanha
De um jeito desconhecido
Me deixando meio entorpecido
E inteiro sem graça
Tipo um quadro de natureza morta na praça

A cabeça pensa um tanto realista-magicamente
Criativa esporadicamente
Com palavras sencientes
E mortos sapientes

Faço rimas ruins
Como funções afins
Porque métrica e rimas parnasianas
São muito cartesianas

Devia voltar aos poemas livres

Quem sabe na próxima

Cronos

‌No aniversário da partida os mortos voltam para dar um olá, ver como anda o povo que ficou e o mundo que restou. Um tipo de trato com quem os rege, se é que há algo desse tipo, ou talvez eles só sejam livres como deveriam ter sido na Terra e decidem lembrar os velhos tempos, como se estivessem olhando fotografias de um passado sem memória.
‌Acredito que eles pulam de casa em casa, fazendo um roteiro que ignora o tempo e o espaço para poder estar no mesmo ambiente daqueles que amavam.
‌Dependendo da necessidade e da saudade talvez eles até apareçam em outras datas comemorativas, como aniversários, ou até mesmo nas situações em que o coração de quem ficou aperta mais um pouco ao escrever um conto sem significado real.

Desencontro

Acho que posso resumir um pouco a nossa relação à palavra desencontro. Inicialmente por falta de maturidade minha e um pouco sua, depois por questões de sua vida. Parece que nunca estamos na mesma página, e tenho sido pessimista nos últimos dias achando que nunca vamos estar. Não sei muito bem o que se passa, tenho tentado ser mais transparente e expressar o que sinto, mas a sensação é de que estou no escuro. Você tem me mantido no escuro.

O fato é que tenho saudades de conversar contigo, com honestidade e com a facilidade que era, e eu já te disso isso em outro momento, talvez não tenha sido enfático o suficiente. Falei isso também praticamente todas as vezes que o vinho doce desce por minha garganta e adentra meu sangue, borbulhando todas as minhas vontades de te abraçar e beijar.

Bom, mais uma vez ponho palavras no papel, fazer o que. Só sei que não consigo mais assistir a um clipe de música sem lembrar de você e de que gostaria de mostrá-lo. Com quantos desencontros se faz um encontro? Será possível?

Ausência

Me sento na mesa, tomando meu vinho costumeiro e recordo do sonho que tive, aquele em que tu voltava e estava sentado à mesa, somente eu te vi, e me assustei, como se um morto fosse me fazer mal, mas os mortos não fazem nada, nós que fazemos com a saudade e o vazio que fica. Me aflige  me lembrar que você não parecia estar feliz em estar de volta.  Enfim, hoje e novamente eu te vejo aqui defrente, sorrindo, somente para mim, vou assumir o meu egoísmo, que seja. Eu fico saboreando o gosto doce do meu vinho enquanto tu me olhas, talvez bebendo a sua cerveja  e, com certeza, com um cigarro nas  mãos, e a carteira sobre a mesa. Eu tolero a fumaça, meu irmão também, como se isso fosse fazer você parar. O doce sonho ingênuo de dois jovens. Só eu te vejo aqui, e quero manter assim, somente por hoje, por favor, mesmo que eu não te escute. Estou me contentando com pouco agora, pelo simples fato do impossível me parecer palpável demais ao trespassar meu peito como raio e descarregar na ponta da caneta, quente como o meu sangue a contrastar o frio da sua presença. Sem problemas, sempre me sinto mais confortável em temperaturas mais amenas, para contrastar com as fusões nucleares que finjo não sentir. Vou esperar amanhecer e você desaparecer, ou eu vou acordar, mas não  antes de dançarmos a minha valsa de Julho, antecipadamente, aproveitando o embalo de sensações palpáveis e irreais.

Futuro

Nos encontramos em volta de uma fogueira, na faixa de areia do mar, numa noite escura e fria de lua nova. Os olhos se encontram, de par em par, para ouvir as histórias de um passado que um dia pertecemos. Os momentos chegam como as ondas do mar próximo, causando um estardalhaço dentro dos peitos mais aberto, dentro dos olhos mais atentos. O vento começa a uivar alto, saindo de dentro do pulmões, rindo, e farfalhando as brasas da fogueira que se levantam com as rajadas. As histórias dançam por entre todos os corpos, adentrando e saindo, até o fim da noite, enquanto cantamos, comemos e trocamos presentes. Eu com certeza estaria sob o efeito do álcool e me perguntando que pontos da minha vida me trouxeram até esse momento, com um sorriso no rosto e talvez algumas lágrimas nos olhos, agradecido por ter encontrado vocês.

LINHA DO TEMPO

Num encontro no meio de um café

E eu meio sem fé

Se fez um estalo no peito

Que me deixou meio sem jeito

E com um beijo debaixo da garoa

Fomos em direção à proa

De uma embarcação desconhecida

Ao som de Big Jet Plane

O estalo continuou e esbravejou

E eu não sei o que se passou

Quem ja viu, um peito estalando?

Deve ser coisa de coração se velando

Dei adeus, até nunca mais

Mas com o destino não se brinca jamais

E meio sem jeito o desdem

Foi pertencer a outrem

Depois dum encontro no meio de um café

E eu meio sem fé

O não dito foi dito

E o dito foi reescrito

Com um beijo debaixo de luzes

Agora ao som de Mariners Apartment Complex

E por cima de algumas cicatrizes

Deitado e estalado fiquei

E me expliquei

Então hoje tu se vai até outra hora

Agora sem trilha sonora

Me despeço debaixo de coisas quaisquer

Sem um beijo sequer

TINTA

Eu caio, igual a Ícaro ao se aproximar do sol. Contudo, antes do impacto com o mar, antes de ser submerso na água gelada do Atlântico, antes de me dar conta da queda e me desfazer em tinta no oceano, vejo palavras voando de mim, se desprendendo do corpo, abandonando o barco. Tento pegá-las com as mãos, mas elas escorrem, trespassam o ser. Eu até engulo algumas de gosto amargo, mas não há volta. A decisão foi tomada, por elas, não por mim. Elas que são os seres sencientes que se abrigam na pele, que revolvem o estômago, que movimentam os músculos. Lá se vai minha palavra favorita servir de alimento aos peixes. Lá se vão minhas citações favoritas de autores se tornarem nuvens. Lá se vai meu nome pelo ar, e meu corpo ao mar. Enquanto isso eu me pergunto: o que vive mais, o nome ou o corpo?

Espelho de Ojesed

Eu acordo. Sozinho. Num lugar aberto e deitado sobre uma grama fria, de um orvalho recém caído. Ainda não é possível ver o sol, mas seus raios dão leves indícios no céu roxo e refletem entre todas as partículas em suspensão na névoa dos aflitos e da minha respiração. As luzes dos postes começam a se apagar, uma seguindo a outra, e a outra, e a outra. Ao longe, na linha do horizonte há um armazém, ou um galpão, a única fonte de luz artificial ainda acesa. Sigo. Sigo. Sigo. Ao chegar, finalmente, encontro uma porta de madeira cerrada, antiga, alta, enferrujada e com um líquido saindo por entre as frestas, com um forte cheiro de álcool. Ouço música e vozes lá dentro, uma única voz conhecida dentro da multidão aparente. Fico parado. Um minuto, por favor. Dois. Três. Cinco. Abro a porta enquanto serpentinas caem do teto. Adentro um saguão onde os mortos dançam, interagem, cantam, bebem a cachaça e fumam. Não preciso nem pensar muito para saber exatamente em qual desses grupos a voz que procuro se encontra. A fumaça passa a ser minha guia. A música alta se faz inaudível por mim, as risadas menos ainda. Somente a voz é clara, e focada. Te acho. Debaixo do céu de fogo e nuvens. Eu palpito. Pupila dilata, pra sair mais água. Tu sorri assim que me vê, me chama para perto, como se nada demais tivesse acontecido. Como se eu estivesse chegando de viagem. Mas quem partiu foi você, não foi? A música não para, agora audível para mim. Tu dança uma valsa comigo. Os outros mortos vão se esvaindo, se misturando à névoa, um a um. Num piscar de olhos tudo se vai. Eu acordo. Sozinho.

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